Grama sintética no futebol

Existem pouco mais de 3.300 campos sintéticos com certificação FIFA ativa espalhados por mais de 150 países. O selo FIFA Quality tem validade de 3 anos e o FIFA Quality Pro tem validade de apenas 1 ano.

A FIFA permite o uso de gramados sintéticos Quality Pro em eliminatórias da Copa do Mundo e torneios continentais, mas na Copa do Mundo 2026 os jogos serão disputados em gramado natural.

A literatura científica atual — baseada em revisões sistemáticas de alto nível e meta-análises de periódicos como o American Journal of Sports Medicine (AJSM) e o British Journal of Sports Medicine (BJSM) — aponta que não há uma resposta simplista, pois o risco varia drasticamente dependendo da região anatômica, do nível de competição e da geração do gramado.

A grande maioria das revisões sistemáticas robustas demonstra que a taxa global de lesões (total por 1.000 horas de exposição) é estatisticamente similar entre gramados sintéticos modernos de última geração e gramados naturais bem mantidos. Cerca de 51,6% dos estudos publicados não encontram diferença significativa na incidência geral, enquanto cerca de 35,5% apontam maior risco geral no sintético e 12,9% no natural.

Grandes estudos epidemiológicos europeus e americanos com atletas profissionais de futebol masculino e feminino revelaram que o gramado sintético chega a apresentar uma incidência até 21% menor de lesões na região da pelve e coxa (como estiramentos de adutores/pubalgia e lesões de isquiotibiais). Isso ocorre porque a regularidade perfeita da superfície sintética evita os pequenos "falsos apoios" e buracos comuns nos gramados naturais, que geram contrações excêntricas abruptas e lesões musculares.

O grande problema do gramado sintético reside nas extremidades distais dos membros inferiores. A maioria esmagadora dos estudos (cerca de 58,3%) aponta uma taxa significativamente maior de lesões no pé e no tornozelo no gramado artificial. O gramado sintético possui um coeficiente de atrito rotacional e linear muito mais elevado. Quando o jogador realiza um movimento de corte, giro (pivoting) ou desaceleração rápida, as travas da chuteira "prendem" na superfície de forma excessiva. Como o solo não cede (diferente da grama natural, onde o bloco de terra se desprende), o torque gerado na rotação é transferido diretamente para a cadeia cinética ascendente, provocando entorses de tornozelo por inversão e estresse severo no antepé.

Referências
1. Fédération Internationale de Football Association. FIFA Quality Programme for Football Turf: Certified Fields Worldwide Database. Zurich: FIFA; 2025/2026.
2. Confederação Brasileira de Futebol. Regulamento Geral de Competições (RGC): Diretrizes para Infraestrutura de Estádios e Superfícies de Jogo. Rio de Janeiro: CBF; 2025/2026.
3. European Club Association (ECA). Artificial Turf in Association Football: A Resource Guide on Field Standards and Competition Rules across European Leagues. Nyon: ECA; 2024.
4. Syndergaard A. Lower Extremity Injury Rates on Artificial Turf Versus Natural Grass Playing Surfaces: A Systematic Review. The American Journal of Sports Medicine. 2022;50(5):1440-1452.
5. Cohen M, et al. Epidemiologia das lesões no futebol profissional brasileiro: impacto das superfícies sintéticas de última geração. Revista Brasileira de Ortopedia (RBO) / Simpósio Médico da CBF.
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Gould HP, Lostetter SJ, Samuelson ER, Guyton GP. Lower Extremity Injury Rates on Artificial Turf Versus Natural Grass Playing Surfaces: A Systematic Review. Am J Sports Med. 2023 May;51(6):1615-1621. doi: 10.1177/03635465211069562. Epub 2022 May 20. PMID: 35593739.
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